Deixo este ano com o coração cheio. Olho para trás e retiro de todos estes meses um conjunto de memórias que ficarão comigo para sempre.
São tantas, essas vivências, que parecem existir para além de uma só ano. A verdade é que tudo parece demasiado utópico para decorrer num mundo onde tanto se afoga em eminentes pedaços de corrosivas imperfeições que, num segundo, puxam os pés para o céu e viram a cabeça na direção da terra.
Em 2017 cresceu mais um coração no meu peito e hoje sou mãe. Foi também neste ano que me vi entusiasmar e manifestar-me profissionalmente, num ambiente que se abriu perante os meus olhos e me deslumbrou desde o início deste mais recente desafio. Foram muitos os sorrisos e espero, honestamente, que o próximo ano me permita continuar a viver desta forma tão manifestamente genuína e feliz.
Hoje faço 31 anos e sei que este último foi um dos melhores de sempre.
Este foi o primeiro presente que te entreguei num dia da mãe. Fitando a câmara, mal conhecia o significado que aquele gesto continha. Atribui-lhe possivelmente uma classificação arbitrária sem reparar no sorriso que te proporcionou.
Hoje, continuo a ser esta menina de rosto orientado para a lente que deseja tão ardentemente estender na tua direção tudo aquilo que poderá fazer-te feliz. A única diferença é saber que, para ti, a maior prenda não está nas minhas mãos mas sim em mim mesma.
Hoje partilho um texto que escrevi para a Magazine.HD, revista com a qual colaborei durante cerca de dois anos. Encontrei uma equipa incrível, com profissionais que jogam com as letras de forma brilhante, manuseando-as com a destreza que une a paixão pela criação de conteúdos à atração pelo meio audiovisual.
Este conteúdo foi inserido numa rubrica pessoal chamada "As minhas fitas - Crónica de uma cinéfila" e reflete aquilo que existiu em mim nos momentos em que enfrentei a tela de cinema e visualizei um conjunto de filmes que sairam comigo da sala e passaram, de certa forma, a pertencer-me.
Espero que gostem!
Este mês procurei a fuga ao cinema formatado que tanto consumimos para me embrulhar no je ne sais quoi francês. Há uns anos encontrava-me ainda no útero da visão do conhecido, do afamado e do explorado. As telas que me eram dadas a conhecer e que, por sua vez, eu própria escolhia, restringiam-se, de certa forma, a uma ignóbil agnosia que me cobria os olhos. Um dia, apresentaram-me o cinema francês de uma forma que jamais esquecerei: com a oferta de um DVD que não continha apenas um círculo platinado com um buraco no centro mas sim uma coletânea completa de sentimentos. Foi com a Amélie Poulain que me apaixonei pelo cinema abstrato, incomum e, umas quantas vezes, oculto.
“O Fabuloso Destino de Amélie” (Título original: “Le fabuleux destin d’Amélie Poulain”), de 2001, centraliza-se numa personagem – a Amélie – que possui tudo aquilo que me envolve – e, por vezes, devolve – a esperança no ser humano. Sendo um filme diferente, pode ser amado ou odiado, mas penso que dificilmente será sentido como indiferente. A Amélie entrega-nos a beleza das suas falhas, a inocência dos seus atos, o seu castelo de incertezas, a pureza dos seus gestos, a atenção ao detalhe. Todas estas componentes e mais algumas são extraordinariamente aglomeradas num filme que aviva a real essência de nós mesmos. Aparentemente elementar, não há nada de mais complexo na simplicidade das cenas deste filme que, com o bónus da fabulosa banda sonora que grita o nome Yann Tiersen, me fazem aplaudir um trabalho que permanecerá sublinhado.
Depois desta primeira verdadeira experiência de quase-êxtase, seguiu-se um outro filme – também ele oferecido em DVD – chamado “Amor ou Consequência” (Título original: “Jeux d’enfants”) e do ano de 2003. Sophie e Julien são criadores e criação de um jogo que, desde as suas infâncias, é utilizado como forma de viver na relação. À medida que o tempo passa, as regras tornam-se cada vez mais rigorosas e ousadas e ambos envolvem-se numa teia da qual não conseguem fugir. Tudo isto projeta-se num “castelo de sonhos” que foi traçado por ambos e que vai ruindo com as mudanças que cada um sofre. Porém, por detrás do palco, no fundo do cenário, está patenteado o amor que uniu duas pessoas para a eternidade. “Cap ou pas cap?” Passando um ano mais recente, não há dúvida que as criticas ao filme “A Vida de Adèle”(Título original: “La vie d’Adèle”) impeliram-me a visionar esta película no cinema.
Com 179 minutos e um ritmo lento, não dei pelo bater dos ponteiros do relógio. O amor que surge entre duas raparigas – temática bastante banalizada – foi explorado de uma forma íntima, ousada e intensa. Não parecem existir atrizes ou atores que colocam máscaras perante uma câmara. As cenas são representadas de um modo instintivo e quase nato, com recorrentes captações, em grande plano, de expressões tão ténues que, de outra forma, não seriam reconhecidas. O foco no olhar, na pele, nos sentidos é, sem dúvida, diferenciador. Para mim, mais do que a evocação ao amor entre duas pessoas do mesmo género, relevam-se os medos, as lutas internas e externas que nos amarram o ego e que, por vezes, nos conduzem como marionetas. Afinal, será a sociedade a maior ditadora das nossas ações ou seremos nós próprios os principais responsáveis pelo julgamento do nosso sentir e do nosso agir?
É um facto que, apesar das pesadas forças externas, detemos a chave que nos permite escolher a forma de estar com os outros no mundo. As relações que estabelecemos são muitas vezes desfeitas por nadas que ganham dimensões absolutamente estonteantes e absurdas. A pureza da entrega é algo que escasseia, pela ignorância, pelo egoísmo ou pela chamada sociedade impiedosa. Foi também num filme francês que choquei com a mais doce forma de amar. Cambaleando para a sala de cinema, preparava o meu coração para as lágrimas que esperaria jorrar sobre a minha camisa branca. Sendo uma história real e tão profunda, aguardaria por um drama – puro na sua essência – que retrataria a amizade entre um milionário tetraplégico e um jovem. Saí de lá, ainda oscilando sobre o meu corpo, com uma nova forma de rir estampada nos lábios. “Amigos Improváveis” (Título original: “Intouchables”), de 2011, ofereceu-me uma deliciosa forma de sentir a dor.
Um pouco na mesma linha de entrega ao próximo, mas recaindo numa vertente mais circunspecta e dramática, realço “O Escafandro e a Borboleta” (Título original: “Le scaphandre et le papillon”), de 2007. Inicialmente reticente, adiei a visualização deste filme por diversas vezes. Só este mês é que decidi entregar-me. Com coragem, acedi ao meu Videoclube e deixei-me cobrir por esta maravilhosa obra-prima que me entorpeceu o corpo, arrebatou a alma e asfixiou os sentidos com a cruel e exasperante verdade que foi relatada diante dos meus olhos, como uma melodia sem fim. Uma melodia seca e pútrida que me envolveu a garganta com as suas gigantes mãos. Roubou-me a fala. Tremia sem me mexer com o transtornante sofrimento e com a capacidade que alguns têm para torná-lo suportável. E, assim, por entre os inúmeros clássicos franceses e os belíssimos filmes contemporâneos que têm relevado, cada vez mais, o cinema francês, termino aqui uma pequena amostra cinematográfica desta cultura.
Conta-me os teus segredos. Guarda-los-ei como se fossem meus. Senti-los-eis como se me pertencessem. Deixa-me mergulhar nos teus braços, sentir a tua carne, hoje, aqui, neste pedaço de tempo que nos uniu.
Os teus sussurros despertam-me, de manhã, para um dia que não passa pelos ponteiros do relógio. Os teus dedos percorrem os meus olhos e, sem falares, dizes-me tanto. Escreves nos meus braços palavras que não existem, pelo menos nos dicionários normais. Mas nós entendemo-las; sabemos o que significam e perseguimo-las, juntos, como se pretendêssemos criar um vocabulário só nosso, imperceptível a mentes alheias.
Enrolada nos brancos lençóis, sinto os pequenos raios de sol aquecerem o quarto. São tímidos. Mergulham em nós com cautela, pedindo permissão para se embrenharem no espaço que também é deles. E ali, permanecemos deitados, embrulhados em mais um dia que não passa pelo tempo. E se esse dia tivesse tempo, agitaria os mais belos ponteiros sobre esses dois corpos que se esqueceram que aquela manhã é real.
Acabei de ler um texto que sublinhava o facto histórico e facilmente provado de que um número significativo de autores sofriam de depressão ou de outro problema psicológico. Na verdade, sempre acreditei que a capacidade de sentir profundamente qualquer forma de dor amplia a criação de textos mais reais, bonitos e dedicados. No fundo, é como se a dor dotasse os dedos de uma vontade própria que, de modo quase alienígena, moldasse as letras a uma teia de acontecimentos que não poderia ser elaborada de forma leviana.
Acredito que escrevo porque sempre senti demasiadamente perto. O meu peito é feito de uma esponja que absorve uma quantidade incrível de emoções, daquelas que são frequentemente cuspidas para o ar sob a forma de plagiados embrulhos de papel vegetal. O que acontece é simples: o papel rasga-se e deixa-se eclodir com aquelas incríveis partículas invisíveis que, de forma tão lancinante, se cravam nos peitos de quem se permite receber.
Há uns anos, achava que devia romper com a minha forma de sentir as coisas. Apesar de sempre ter conseguido analisar e responder de forma adequada aos eventos que me envolviam, o processo poderia ser interiormente penoso. Por vezes, deixava-me mergulhada num mar de acontecimentos que pareciam não fazer qualquer sentido. Secretamente, desejava transformar-me num robot. E aí imaginava-me a caminhar com as minhas pernas de metal, ostentando um coração de pedra e um sorriso de aço que jamais poderia ser desfeito. Bem, a verdade é que o meu sorriso sempre foi de aço. Dificilmente o conseguem desfazer. É daqueles reflexos tão meus que já não sei olhar-me sem ele.
Entretanto aprendi a olhar para essa minha forma de sentir como um valioso atributo e é nele que revejo a minha força, resiliência e (teimosa) persistência. É meu e a verdade é que me permite viver de uma forma algo peculiar. Sinto-me uma Amélie Poulain, que se derrete com as texturas, formas e cheiros. São os pequenos detalhes que tão grandemente me prendem a uma sensação de incrível bem-estar. E hoje, é este quente sol e o som das patas do meu cão - que tão alegremente saltita pela casa - que me fazem sorrir.
Dizem que os super-heróis não existem, que foram criados para os filmes de animação e que são meros pedaços de ficção. Eu não acredito nisso. Tenho a plena convicção de que existem seres distintos, singulares e até extravagantes.
Esses seres nem sempre são reconhecidos. A sua excentricidade pode colocá-los num ciclo de incompreensão por parte dos que os envolvem. Mas isso entende-se com facilidade: estranhamos o que é diferente e o que não está alinhado com aquilo que conhecemos e que sabemos ser capazes de fazer. A história dá-nos vários exemplos disso:
Albert Einstein, o mais célebre cientista do século 20, foi descrito pelo seu professor como “mentalmente lento, não-sociável e sempre perdido nos seus sonhos.”
Thomas Edison, um dos maiores inventores que o mundo conheceu, foi acusado pelos seus professores como sendo demasiado burro para aprender qualquer coisa.
Charles Darwin, o criador da Teoria da Evolução, foi considerado por muitos como sendo medíocre.
A lista poderia continuar. E esse é um os dos motivos que me leva a crer que a genialidade é, muitas vezes, incompreendida.
Porque é que escrevo sobre super-heróis ou mesmo seres humanos com capacidades acima das normais? Bem, para começar, cresci com um super-herói.
O meu super-herói é alto, elegante e altamente inteligente. Consegue ver para além dos outros e excede-se pela sua capacidade de analisar rápida e acertadamente qualquer situação. Ele existe para além de si: perpetua-se em tudo aquilo que o envolve. É, por isso, imortal.
É belo, sem se preocupar com a roupa que carrega no corpo. Aliás, acredita que o que nos envolve não passa de um cartão-de-visita que nos acompanha, mas que jamais nos poderá definir como seres humanos.
O meu super-herói usa o humor como nenhum outro ser de capa! São poucos os que ficam alheios à sua atraente personalidade e isso é o suficiente para que permaneça na memória de tantos, para sempre.
E as palavras? As palavras que escreve colidem com aquilo que considero superior.
Não há dúvida que os seus poderes são diversificados. Mas o maior de todos é a capacidade de estar sempre presente, em qualquer lugar, em qualquer momento. Bastará gritar pelo seu nome, e ele aparece, envergando a sua bela capa azul com a letra P marcada a negro.
Infelizmente, o meu super-herói não poderá ser o vosso super-herói. Mas ele existe, é real. Existem outros, que poderão assemelhar-se em alguns pontos, mas, para mim, o Super P. é o maior e mais incrível ser que voa pelos céus. Voa sem ser pássaro. E, aqui entre nós, a sua capa não permite que permaneça no ar por mais de 2 segundos. Mas, mesmo assim, ele continua a voar, acenando-me, lá do alto, com um sorriso rasgado na sua clara face.
E quando pousa os pés na terra, o mundo estremece, mas apenas eu sinto esse atrevido abalo. Pelo menos com tal intensidade.
Sim, o meu super-herói é importante para muitos. Mas é amado por mim como mais ninguém. Ele existe desde sempre, ensinou-me a caminhar, a falar e é o primeiro a acreditar que um dia também eu poderei ser uma super-heroína.
E, se um dia lá chegar, olharei para o céu, gritarei pelo seu nome e lá o verei, com a sua capa azul, sorrindo-me. E aí gritarei que tudo se deveu a ele. Ao meu Super-Pai!
Foi há cerca de três anos que senti o olhar espantado de uma amiga fixar a área das minhas sobrancelhas. Fitou-me, de esguelha e, com o queixo colado ao peito, perguntou-me: “O que fizeste às tuas sobrancelhas?"
Permaneci na minha inocente descontração e, depois de mergulhar na casa de banho do centro comercial, entendi o que queria dizer: aqueles fofos pêlos, que preenchiam a área superior dos meus olhos amendoados, tinham desaparecido. Restavam alguns cabelos, vagamente e aleatoriamente distribuídos. Foi aí que compreendi que parecia o Freeza do Dragon Ball!
Chama-se alopécia e caracteriza-se pela perda de cabelos numa determinada área da pele. Em situações mais dramáticas pode atacar o cabelo mas, felizmente, e na parte que me toca, roubou-me apenas as minhas sobrancelhas. São vários os fatores que podem contribuir para que tal aconteça e, no meu caso, foi o stress.
Hoje vivo lindamente com a minha ainda mais aumentada testa e até penso que tudo isso me ajudou a relativizar um conjunto de outras situações. Posso até dizer-vos que consigo apresentar-vos uma lista de robustas vantagens:
Perdi permanentemente a tão odiada monocelha;
Poupo dinheiro em depilações capilares;
Ganhei um ponto em comum com a Whoopi Goldberg;
Com a voz certa, existe uma forte possibilidade de poder vir a participar numa versão humanizada do Dragon Ball.
Com tudo isto pretendo dizer o seguinte: relativizem.
Sei que, por vezes, o chão parece fugir-nos dos pés e aí o nosso corpo balança sobre um abismo sem fundo que nos olha de esguelha. Sussurram aos nossos ouvidos gritos tão mudos que nos ferem o peito e que nos envolvem a face de lágrimas que não teimam em passar. Queremos fechar-nos num casulo e deixar-nos lá ficar, bem sós e enroladas, com os joelhos a roçar na barriga vazia. Mas o casulo é tão frágil que se quebra com um suspiro e, quando o ouvimos rebentar, somos bombardeadas por tantas faces, tantos corpos estranhos que se cruzam com o nosso e que nos deixam na indiferença em que vivemos ou em que pensamos viver. Choramos quando o espaço não existe para além de nós. Sofremos no todo, empurrando os soluços para o fundo da nossa alma, onde ninguém os possa encontrar. Colocamos máscaras de ferro logo pela manhã apenas para podermos avançar de cabeça erguida sem que reparem que, afinal, somos humanos que sentem.
Somos humanos que sentem, pensam e sofrem. Quando uma alma tende a afogar-se num rio que amacia um pequeno barco cinzento, haverá uma outra que a encontrará e que a reconfortará até aquelas pequenas gotas cessarem. Na verdade, esta é uma ilusão em que gosto de viver, por ser um pilar que construí em mim para os outros. Sei que muitos se deixam afundar precisamente por saberem que nunca encontrarão uma mão para os ajudar a regressar ao cimo da água. Mas tu, olha para cima. Vês aquela sombra esguia que se dobra sobre ti? Sou eu, com a mão estendida.
O Ás de espadas estava firmemente agarrado às suas mãos. A mesa redonda achava-se inundada de copos, cartas e fichas que se dispunham em pirâmide à frente dos jogadores. Da sala ao lado ouviam-se um burburinho que se desfalecia na música eletrónica. Algumas gargalhadas ousavam entrar pela porta, vestindo curtos vestidos negros ou encarnados. Eles viraram as suas gordas cabeças e sorriam, com os cigarros no canto da boca. Mas daquela vez, ele não olhou. Estava a ganhar e sabia que podia continuar a juntar vitórias. Já conseguia sentir a saliva encher a sua boca, o seu coração pulsar como um cavalo galgando obstinadamente por destino incerto. As suas mãos tremiam com a ansiedade que beijava sofregamente o entusiasmo. Os outros pareciam distantes, segurando as cartas como papéis sem significado. Mas ele sabia que nas suas repousava, bem acordado, o Ás de espadas.
O ar estava pesado e enchia-lhe o peito como se fosse tóxico. Sentia-o entrar pelas suas narinas, queimando-as. O cheiro a cerveja perfurava as suas roupas, juntamente com o fumo a tabaco. Mas nada o demovia daquele posto que tanto honrava. O posto de um jogador.
A jogada estava no final e o desfecho parecia acontecer em câmara lenta. As cartas dos outros jogadores eram lançadas sobre a mesa, juntamente com sorrisos gananciosos, esganados pelo prémio, pelo dinheiro. O seu Ás escorregou-lhe por entre os dedos e um minuto transformou-se num segundo sem termo. Perdera. A sua jogada perfeita derrubara a sua pirâmide de fichas, restando apenas o vazio.
Com as mãos geladas, agarrara nos seus cabelos suados e penteara-os com sofreguidão. Levantara-se, a cambalear, para ir buscar uma cerveja. Todos os cifrões morreram. Agora, ali, só conseguia vislumbrar aquela doce criatura que o esperava numa casa destituída de qualquer calor. Esperava por si para a acolher nos seus braços e dizer-lhe que conseguira resolver todos os seus problemas. Não podia continuar a mentir-lhe, mas a sobriedade que ali o amarrara ao terror sussurrara-lhe os números que devia àquelas pessoas.
Correra mal, aquela noite. As fichas rolaram para o lado oposto. A pirâmide desfizera-se. A exultação terminara. Conseguirá recuperar numa próxima jogada?
O ar parece de algodão, agora que te reencontrei”, diz ela rodando a sua saia amarela clara. Os seus braços esbranquiçados dobram-se sobre si mesmos e do seu rosto salta o castanho caramelizado dos seus olhos que adoça o coração dele. Estão ali, frente a frente, sem se tocar. Parecem contemplar-se, como se cada um fosse uma pintura e pertencesse a um quadro que está exposto e que não pode ser manchado. As palavras enrolam-se nelas mesmas e até os sons se abafam perante o silêncio que é sentido como perfeição.
“O céu parece de cetim, agora que te reencontrei”, diz ele apontando para o manto azul que os cobre. Os seus lábios encarnados desenham um sorriso em si mesmos, encontrando-se com o dela. São dois esboços que não se desmancham. Permanecem, ali, tão belos, tão puros.
À volta, tudo para. Não existe ruído, nem tempo, nem espaço. Apenas a ligeira brisa os faz recordar, por momentos, que não existem apenas um para o outro.
Ele olha para as suas sardas alaranjadas pelo sol e aproxima-se sob o olhar do doce algodão e do manto de cetim. Ela recua, agarrando na sua saia. O seu sorriso desmancha-se em lágrimas e ele limpa-as com a ponta dos seus dedos. Sabe que, se se tocarem, podem despedaçar a magia que criaram outra vez, ao se reencontrarem numa rua tão esquecida. Sabem que, anos atrás, caminharam ali mesmo, pisando o mesmo chão lamacento de mãos dadas, mas que foram separados por uma guerra que agora é apenas cinza.
“O chão parece feito de pétalas, agora que te reencontrei”, diz ela ainda chorando. Avança e abraça-o. A pintura é manchada, a moldura parte-se, o algodão é engolido pelo vento e o manto de cetim é cortado pelas nuvens. Mas os corpos que se contemplavam separados, são agora apenas um.