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Ela tem nome

Ela tem nome

Mão estendida

Sei que, por vezes, o chão parece fugir-nos dos pés e aí o nosso corpo balança sobre um abismo sem fundo que nos olha de esguelha. Sussurram aos nossos ouvidos gritos tão mudos que nos ferem o peito e que nos envolvem a face de lágrimas que não teimam em passar. Queremos fechar-nos num casulo e deixar-nos lá ficar, bem sós e enroladas, com os joelhos a roçar na barriga vazia. Mas o casulo é tão frágil que se quebra com um suspiro e, quando o ouvimos rebentar, somos bombardeadas por tantas faces, tantos corpos estranhos que se cruzam com o nosso e que nos deixam na indiferença em que vivemos ou em que pensamos viver. Choramos quando o espaço não existe para além de nós. Sofremos no todo, empurrando os soluços para o fundo da nossa alma, onde ninguém os possa encontrar. Colocamos máscaras de ferro logo pela manhã apenas para podermos avançar de cabeça erguida sem que reparem que, afinal, somos humanos que sentem.

Somos humanos que sentem, pensam e sofrem. Quando uma alma tende a afogar-se num rio que amacia um pequeno barco cinzento, haverá uma outra que a encontrará e que a reconfortará até aquelas pequenas gotas cessarem. Na verdade, esta é uma ilusão em que gosto de viver, por ser um pilar que construí em mim para os outros. Sei que muitos se deixam afundar precisamente por saberem que nunca encontrarão uma mão para os ajudar a regressar ao cimo da água. Mas tu, olha para cima. Vês aquela sombra esguia que se dobra sobre ti? Sou eu, com a mão estendida.

O jogo

O Ás de espadas estava firmemente agarrado às suas mãos. A mesa redonda achava-se inundada de copos, cartas e fichas que se dispunham em pirâmide à frente dos jogadores. Da sala ao lado ouviam-se um burburinho que se desfalecia na música eletrónica. Algumas gargalhadas ousavam entrar pela porta, vestindo curtos vestidos negros ou encarnados. Eles viraram as suas gordas cabeças e sorriam, com os cigarros no canto da boca. Mas daquela vez, ele não olhou. Estava a ganhar e sabia que podia continuar a juntar vitórias. Já conseguia sentir a saliva encher a sua boca, o seu coração pulsar como um cavalo galgando obstinadamente por destino incerto. As suas mãos tremiam com a ansiedade que beijava sofregamente o entusiasmo. Os outros pareciam distantes, segurando as cartas como papéis sem significado. Mas ele sabia que nas suas repousava, bem acordado, o Ás de espadas.

O ar estava pesado e enchia-lhe o peito como se fosse tóxico. Sentia-o entrar pelas suas narinas, queimando-as. O cheiro a cerveja perfurava as suas roupas, juntamente com o fumo a tabaco. Mas nada o demovia daquele posto que tanto honrava. O posto de um jogador.

A jogada estava no final e o desfecho parecia acontecer em câmara lenta. As cartas dos outros jogadores eram lançadas sobre a mesa, juntamente com sorrisos gananciosos, esganados pelo prémio, pelo dinheiro. O seu Ás escorregou-lhe por entre os dedos e um minuto transformou-se num segundo sem termo. Perdera. A sua jogada perfeita derrubara a sua pirâmide de fichas, restando apenas o vazio.

Com as mãos geladas, agarrara nos seus cabelos suados e penteara-os com sofreguidão. Levantara-se, a cambalear, para ir buscar uma cerveja. Todos os cifrões morreram. Agora, ali, só conseguia vislumbrar aquela doce criatura que o esperava numa casa destituída de qualquer calor. Esperava por si para a acolher nos seus braços e dizer-lhe que conseguira resolver todos os seus problemas. Não podia continuar a mentir-lhe, mas a sobriedade que ali o amarrara ao terror sussurrara-lhe os números que devia àquelas pessoas.

Correra mal, aquela noite. As fichas rolaram para o lado oposto. A pirâmide desfizera-se. A exultação terminara. Conseguirá recuperar numa próxima jogada?

Agora que te reencontrei...

O ar parece de algodão, agora que te reencontrei”, diz ela rodando a sua saia amarela clara. Os seus braços esbranquiçados dobram-se sobre si mesmos e do seu rosto salta o castanho caramelizado dos seus olhos que adoça o coração dele. Estão ali, frente a frente, sem se tocar. Parecem contemplar-se, como se cada um fosse uma pintura e pertencesse a um quadro que está exposto e que não pode ser manchado. As palavras enrolam-se nelas mesmas e até os sons se abafam perante o silêncio que é sentido como perfeição.

“O céu parece de cetim, agora que te reencontrei”, diz ele apontando para o manto azul que os cobre. Os seus lábios encarnados desenham um sorriso em si mesmos, encontrando-se com o dela. São dois esboços que não se desmancham. Permanecem, ali, tão belos, tão puros.

À volta, tudo para. Não existe ruído, nem tempo, nem espaço. Apenas a ligeira brisa os faz recordar, por momentos, que não existem apenas um para o outro.

Ele olha para as suas sardas alaranjadas pelo sol e aproxima-se sob o olhar do doce algodão e do manto de cetim. Ela recua, agarrando na sua saia. O seu sorriso desmancha-se em lágrimas e ele limpa-as com a ponta dos seus dedos. Sabe que, se se tocarem, podem despedaçar a magia que criaram outra vez, ao se reencontrarem numa rua tão esquecida. Sabem que, anos atrás, caminharam ali mesmo, pisando o mesmo chão lamacento de mãos dadas, mas que foram separados por uma guerra que agora é apenas cinza.

“O chão parece feito de pétalas, agora que te reencontrei”, diz ela ainda chorando. Avança e abraça-o. A pintura é manchada, a moldura parte-se, o algodão é engolido pelo vento e o manto de cetim é cortado pelas nuvens. Mas os corpos que se contemplavam separados, são agora apenas um.

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