Conta-me os teus segredos. Guarda-los-ei como se fossem meus. Senti-los-eis como se me pertencessem. Deixa-me mergulhar nos teus braços, sentir a tua carne, hoje, aqui, neste pedaço de tempo que nos uniu.
Os teus sussurros despertam-me, de manhã, para um dia que não passa pelos ponteiros do relógio. Os teus dedos percorrem os meus olhos e, sem falares, dizes-me tanto. Escreves nos meus braços palavras que não existem, pelo menos nos dicionários normais. Mas nós entendemo-las; sabemos o que significam e perseguimo-las, juntos, como se pretendêssemos criar um vocabulário só nosso, imperceptível a mentes alheias.
Enrolada nos brancos lençóis, sinto os pequenos raios de sol aquecerem o quarto. São tímidos. Mergulham em nós com cautela, pedindo permissão para se embrenharem no espaço que também é deles. E ali, permanecemos deitados, embrulhados em mais um dia que não passa pelo tempo. E se esse dia tivesse tempo, agitaria os mais belos ponteiros sobre esses dois corpos que se esqueceram que aquela manhã é real.
Acabei de ler um texto que sublinhava o facto histórico e facilmente provado de que um número significativo de autores sofriam de depressão ou de outro problema psicológico. Na verdade, sempre acreditei que a capacidade de sentir profundamente qualquer forma de dor amplia a criação de textos mais reais, bonitos e dedicados. No fundo, é como se a dor dotasse os dedos de uma vontade própria que, de modo quase alienígena, moldasse as letras a uma teia de acontecimentos que não poderia ser elaborada de forma leviana.
Acredito que escrevo porque sempre senti demasiadamente perto. O meu peito é feito de uma esponja que absorve uma quantidade incrível de emoções, daquelas que são frequentemente cuspidas para o ar sob a forma de plagiados embrulhos de papel vegetal. O que acontece é simples: o papel rasga-se e deixa-se eclodir com aquelas incríveis partículas invisíveis que, de forma tão lancinante, se cravam nos peitos de quem se permite receber.
Há uns anos, achava que devia romper com a minha forma de sentir as coisas. Apesar de sempre ter conseguido analisar e responder de forma adequada aos eventos que me envolviam, o processo poderia ser interiormente penoso. Por vezes, deixava-me mergulhada num mar de acontecimentos que pareciam não fazer qualquer sentido. Secretamente, desejava transformar-me num robot. E aí imaginava-me a caminhar com as minhas pernas de metal, ostentando um coração de pedra e um sorriso de aço que jamais poderia ser desfeito. Bem, a verdade é que o meu sorriso sempre foi de aço. Dificilmente o conseguem desfazer. É daqueles reflexos tão meus que já não sei olhar-me sem ele.
Entretanto aprendi a olhar para essa minha forma de sentir como um valioso atributo e é nele que revejo a minha força, resiliência e (teimosa) persistência. É meu e a verdade é que me permite viver de uma forma algo peculiar. Sinto-me uma Amélie Poulain, que se derrete com as texturas, formas e cheiros. São os pequenos detalhes que tão grandemente me prendem a uma sensação de incrível bem-estar. E hoje, é este quente sol e o som das patas do meu cão - que tão alegremente saltita pela casa - que me fazem sorrir.