Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ela tem nome

Ela tem nome

Porque me procuro se não me encontro

Porque me procuro

Se não me encontro?

 

As folhas são lágrimas prometidas,

Escondidas pela cor que o céu lhes deu.

São falhas levemente embutidas

Por claves de algodão de um fausto breu.

 

Porque me procuro

Se não me encontro?

 

A terra de que é feito o meu peito

Repousa na ditosa solidão,

Desgastada está ela, sob o leito

Que alguém destruiu sem meu perdão.

 

Porque me procuro

Se não me encontro?

 

Minhas mãos são lápides de sopro

Engrossadas pelo lodo de teus lábios,

Serão elas guiadas pelo logro

Que tantas garras mutilaram em soslaios?

 

Porque me encontro

Se não me procuro?

A casa está vazia

A casa está vazia.

Apenas resto eu.

Descalço-me,

E sinto o frio chão tocar-me

Embrulhando-se na minha alma.

Olho mas não vejo

Para além de mim.

Oiço mas não escuto

Mais do que soluços,

Que ardem dentro do meu peito.

A luz que rompe da janela

Mascara-se em escuridão

E nem o luar me vê.

Nem eu me vejo.

Talvez porque me escondi

E vendi os espelhos.

Os meus reflexos perderam-se,

Algures numa loja de velharias.

E agora,

Resta apenas um corpo assustado,

Recolhido,

Fechado em si.

Um corpo que espera

Que alguém o encontre.

 

Hoje cheira a pipocas no metro

Hoje cheira a pipocas no metro. Os odores de todas as pessoas que me rodeiam afogam-se neste doce sentir que me afaga as narinas. Nem todos os dias sinto este cheiro, o das pipocas. Por vezes embrenho-me a pensar na quantidade de dedos que tocaram nestas paredes gordurosas. Dedos com história, cada um diferente de todos os outros. Mas, neste momento, delicio-me com um cheiro que parece ter surgido de um mundo imaginário que está a ser desenhado na mente de alguém. Será daquele senhor com barba branca mas com sorriso de criança? Os corpos que esta carruagem carrega parecem despidos. Alguns rostos estão demasiado fatigados para se expressarem. Os olhares cruzam-se, fugitivos, como se temessem adentrar-se na essência de um estranho. Somos estranhos, de facto, que se cruzam num ponto e que, na maior parte das vezes, nunca mais voltam a traçar os seus raios num círculo comum. Mas que importa isso agora, que encontrei o cheiro a pipocas doces? Será que os outros também o sentem? Ou serei apenas eu e o senhor de barba branca e com sorriso de criança?

Ainda haverá humanidade?

Por vezes perco a fé na humanidade. As pessoas ficam a parecer-me decrépitas e aí penso que ser um animal racional é um infortúnio. Sei que estes pensamentos são totalmente repreensíveis, já que todos nós somos inconsistentemente moldados pelas imperfeições (que, na verdade, nos embelezam) e que são precisamente esses traços que nos marcam como indivíduos distintos. Mas, honestamente, nem sempre consigo ver o mundo sem contorná-lo pelas mentiras, pela violência e pela estúpida guerra que não se deixa morrer.
É incrível como alimentamos a nossa própria maldade. Ela consome-nos, diariamente; dilui pedaços nossos no caos do sistema e viola a nossa própria integridade.
A televisão é colorida pelo fogo das bombas e a rádio deixa soar o grito dos tiros que, diariamente, cruzam o outrora céu azul. Será ainda azul, este nosso céu? Ou perdemo-lo pelos sentidos desgarrados da ganância?
Sou humana, como eles. Todos nós pertencemos a este rijo núcleo que colide contra um destino poluído. E, sabendo disto, continuamos a caminhar pela mesma estrada.

Sim, as balas são diferentes, mas o braço que as faz disparar é apenas um.

As palavras fogem-me pelos dedos...

Por vezes acontece...

 

As palavras fogem-me pelos dedos. Tento apanhá-las mas não consigo. Elas teimam em escorregar pela minha pele e em cair sobre o velho teclado negro que pressiono, sem parar.
Desejo recolhê-las em mim e abraçá-las numa coesa eternidade. Anseio colecioná-las, reproduzi-las, floreá-las e, depois, relê-las até ficar demasiado cansada para manter os olhos abertos. Aflijo-me ao querer senti-las em mim como outrora; pisá-las sem as magoar, senti-las nas ondas dos meus cabelos quando o vento sopra, ao longe.


“São apenas palavras. Nada mais.” A questão é que as palavras são, muitas vezes, o que existe para dar forma ao invisível. Quero moldá-las, como barro; quero sentir as minhas sujas mãos torneá-las com a delicadeza de uma obra-prima. Mas agora, não as sinto. Estou demasiado fatigada para conseguir retê-las no âmago de uma criação. A exaustão roubou-me o que de mais belo possuo.

 

Será que o bloqueio do artista não passará de um pequeno devaneio do tempo?  

És real e não de plástico

A superfície do teu olhar percorre o meu sorriso. A verdade é que não sei que o fazes a não ser quando te encontro, naquele segundo desprevenido. Ficamos os dois a ser muito mais que tu e eu. Somos um conjunto de algo que desconhecemos, por pensarmos que nos conhecemos em demasia. E é esse pedaço de ignorância que nos permite ser o que somos e não o queremos ser.
Encontraste-me, naquele passado, e aí ficámos enrolados nas teias de uma felicidade que parece absurda. Isto porque és o príncipe que desenhava nas ingénuas fantasias da minha infância. És aquele boneco tosco que rabiscava com o lápis colorido de bico quebrado.
Sei que os contos já passaram de moda. Sei que o presente e o passado são as únicas certezas que podemos abraçar e é precisamente por isso que escolho imortalizar-te em palavras.
Amo-te por existires para além dos sonhos. És real e não de plástico. Consigo sentir as tuas imperfeições nas minhas e é aí que compreendo que nada disto saiu de um antigo retrato criado por uma criança sem especial talento para o desenho. Gosto das tuas medidas, da certeza dos seus centímetros, da complexidade do teu crânio, da postura com que me vês.
Não és um irreprovável manequim que se vangloria pelas montras. Tens cabeça e não fazes questão de te mostrares. Mas o mais incrível é que todos te conseguem ver.

Ela tem nome

Ela é aquilo que nunca quis ser. Sempre se empanturrou com

preocupações alheias. Enchia o peito com mágoas desperdiçadas, que

tinham sido atiradas para o chão, algures e por alguém com rosto

mascarado. As pessoas passavam por ela e sussurravam desposadas

afirmações que lhes saiam das bocas como triviais argumentos. Isto

porque possuía um físico demasiado franzino para parecer normal. A

verdade é que tudo isto a transformou e marcou-a como uma pessoa sem

número, mas com palavras.

Ela vive com os sentimentos à flor de uma pele quase transparente. É

tão cândida que parece não existir, aflorando-se num corpo que tantas

vezes foi banido da definição de beleza, dos incompletos dicionários

que habitavam nas estantes dos seus colegas de escola.

Ela nunca compreendeu a necessidade que todos tinham de sublinhar os

seus traços físicos. A sociedade parecia quer moldá-la a uma figura

parecida com o normal, mas ela não conseguia corresponder às suas

expetativas e, aí, deixava-se afogar na corrente de lágrimas que

escorriam pelo seu rosto, lambendo a sua pele com uma ferocidade

dormente.

Ela sempre se sentiu diferente mas não sabia porquê nem como. Os

outros eram apenas opostos e ninguém parecia compreendê-la, de facto.

Foi assim que se albergou no crepuscular sonho de marcar o mundo, de

mudar os caminhos de outrem e de manifestar a sua suposta

dissemelhança. Mas o êxtase sempre foi curto e a sua interna realidade

abanava-a e berrava, bem junto dos seus ouvidos:

“Não és diferente nem especial. És apenas mais uma e nunca conseguirás

transformar o mundo”.

E esta é uma indubitável verdade, mas não deverá vedar a sua vontade

de transmitir-se para fora. Sim, grande parte dos seus poemas e textos

permanecem fechados em gavetas (como uma escritora que procura reviver

os tempos etéreos e acreditar que consegue escrever um romance numa

máquina de escrever).

Ela é um complexo de ansiedade e de calma. A calma cola-se a si como

uma capa amarelada que parece desfocá-la do forte e incessante bater

do seu coração. Bum, bum, bum. Lá está ele, mais uma vez, querendo

romper do seu peito. E como pessoa calma que é, precisa de uma dose

diária de exercícios para a ansiedade, que lhe permitam conduzir sem

seja interrompida por um súbito ataque de pânico.

Ela mergulha em sonhos e deixa-se sufocar por eles. No fundo, é como

se o mundo fosse demasiado pequeno para acolher todas as curtas-

metragens que cria na sua mente.

Ela é muito e muito pouco. Ela sou eu.

E ela tem nome.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub