Hoje cheira a pipocas no metro. Os odores de todas as pessoas que me rodeiam afogam-se neste doce sentir que me afaga as narinas. Nem todos os dias sinto este cheiro, o das pipocas. Por vezes embrenho-me a pensar na quantidade de dedos que tocaram nestas paredes gordurosas. Dedos com história, cada um diferente de todos os outros. Mas, neste momento, delicio-me com um cheiro que parece ter surgido de um mundo imaginário que está a ser desenhado na mente de alguém. Será daquele senhor com barba branca mas com sorriso de criança? Os corpos que esta carruagem carrega parecem despidos. Alguns rostos estão demasiado fatigados para se expressarem. Os olhares cruzam-se, fugitivos, como se temessem adentrar-se na essência de um estranho. Somos estranhos, de facto, que se cruzam num ponto e que, na maior parte das vezes, nunca mais voltam a traçar os seus raios num círculo comum. Mas que importa isso agora, que encontrei o cheiro a pipocas doces? Será que os outros também o sentem? Ou serei apenas eu e o senhor de barba branca e com sorriso de criança?
Por vezes perco a fé na humanidade. As pessoas ficam a parecer-me decrépitas e aí penso que ser um animal racional é um infortúnio. Sei que estes pensamentos são totalmente repreensíveis, já que todos nós somos inconsistentemente moldados pelas imperfeições (que, na verdade, nos embelezam) e que são precisamente esses traços que nos marcam como indivíduos distintos. Mas, honestamente, nem sempre consigo ver o mundo sem contorná-lo pelas mentiras, pela violência e pela estúpida guerra que não se deixa morrer. É incrível como alimentamos a nossa própria maldade. Ela consome-nos, diariamente; dilui pedaços nossos no caos do sistema e viola a nossa própria integridade. A televisão é colorida pelo fogo das bombas e a rádio deixa soar o grito dos tiros que, diariamente, cruzam o outrora céu azul. Será ainda azul, este nosso céu? Ou perdemo-lo pelos sentidos desgarrados da ganância? Sou humana, como eles. Todos nós pertencemos a este rijo núcleo que colide contra um destino poluído. E, sabendo disto, continuamos a caminhar pela mesma estrada.
Sim, as balas são diferentes, mas o braço que as faz disparar é apenas um.
As palavras fogem-me pelos dedos. Tento apanhá-las mas não consigo. Elas teimam em escorregar pela minha pele e em cair sobre o velho teclado negro que pressiono, sem parar. Desejo recolhê-las em mim e abraçá-las numa coesa eternidade. Anseio colecioná-las, reproduzi-las, floreá-las e, depois, relê-las até ficar demasiado cansada para manter os olhos abertos. Aflijo-me ao querer senti-las em mim como outrora; pisá-las sem as magoar, senti-las nas ondas dos meus cabelos quando o vento sopra, ao longe.
“São apenas palavras. Nada mais.” A questão é que as palavras são, muitas vezes, o que existe para dar forma ao invisível. Quero moldá-las, como barro; quero sentir as minhas sujas mãos torneá-las com a delicadeza de uma obra-prima. Mas agora, não as sinto. Estou demasiado fatigada para conseguir retê-las no âmago de uma criação. A exaustão roubou-me o que de mais belo possuo.
Será que o bloqueio do artista não passará de um pequeno devaneio do tempo?
A superfície do teu olhar percorre o meu sorriso. A verdade é que não sei que o fazes a não ser quando te encontro, naquele segundo desprevenido. Ficamos os dois a ser muito mais que tu e eu. Somos um conjunto de algo que desconhecemos, por pensarmos que nos conhecemos em demasia. E é esse pedaço de ignorância que nos permite ser o que somos e não o queremos ser. Encontraste-me, naquele passado, e aí ficámos enrolados nas teias de uma felicidade que parece absurda. Isto porque és o príncipe que desenhava nas ingénuas fantasias da minha infância. És aquele boneco tosco que rabiscava com o lápis colorido de bico quebrado. Sei que os contos já passaram de moda. Sei que o presente e o passado são as únicas certezas que podemos abraçar e é precisamente por isso que escolho imortalizar-te em palavras. Amo-te por existires para além dos sonhos. És real e não de plástico. Consigo sentir as tuas imperfeições nas minhas e é aí que compreendo que nada disto saiu de um antigo retrato criado por uma criança sem especial talento para o desenho. Gosto das tuas medidas, da certeza dos seus centímetros, da complexidade do teu crânio, da postura com que me vês. Não és um irreprovável manequim que se vangloria pelas montras. Tens cabeça e não fazes questão de te mostrares. Mas o mais incrível é que todos te conseguem ver.