O jogo
O Ás de espadas estava firmemente agarrado às suas mãos. A mesa redonda achava-se inundada de copos, cartas e fichas que se dispunham em pirâmide à frente dos jogadores. Da sala ao lado ouviam-se um burburinho que se desfalecia na música eletrónica. Algumas gargalhadas ousavam entrar pela porta, vestindo curtos vestidos negros ou encarnados. Eles viraram as suas gordas cabeças e sorriam, com os cigarros no canto da boca. Mas daquela vez, ele não olhou. Estava a ganhar e sabia que podia continuar a juntar vitórias. Já conseguia sentir a saliva encher a sua boca, o seu coração pulsar como um cavalo galgando obstinadamente por destino incerto. As suas mãos tremiam com a ansiedade que beijava sofregamente o entusiasmo. Os outros pareciam distantes, segurando as cartas como papéis sem significado. Mas ele sabia que nas suas repousava, bem acordado, o Ás de espadas.
O ar estava pesado e enchia-lhe o peito como se fosse tóxico. Sentia-o entrar pelas suas narinas, queimando-as. O cheiro a cerveja perfurava as suas roupas, juntamente com o fumo a tabaco. Mas nada o demovia daquele posto que tanto honrava. O posto de um jogador.
A jogada estava no final e o desfecho parecia acontecer em câmara lenta. As cartas dos outros jogadores eram lançadas sobre a mesa, juntamente com sorrisos gananciosos, esganados pelo prémio, pelo dinheiro. O seu Ás escorregou-lhe por entre os dedos e um minuto transformou-se num segundo sem termo. Perdera. A sua jogada perfeita derrubara a sua pirâmide de fichas, restando apenas o vazio.
Com as mãos geladas, agarrara nos seus cabelos suados e penteara-os com sofreguidão. Levantara-se, a cambalear, para ir buscar uma cerveja. Todos os cifrões morreram. Agora, ali, só conseguia vislumbrar aquela doce criatura que o esperava numa casa destituída de qualquer calor. Esperava por si para a acolher nos seus braços e dizer-lhe que conseguira resolver todos os seus problemas. Não podia continuar a mentir-lhe, mas a sobriedade que ali o amarrara ao terror sussurrara-lhe os números que devia àquelas pessoas.
Correra mal, aquela noite. As fichas rolaram para o lado oposto. A pirâmide desfizera-se. A exultação terminara. Conseguirá recuperar numa próxima jogada?
