Este foi o primeiro presente que te entreguei num dia da mãe. Fitando a câmara, mal conhecia o significado que aquele gesto continha. Atribui-lhe possivelmente uma classificação arbitrária sem reparar no sorriso que te proporcionou.
Hoje, continuo a ser esta menina de rosto orientado para a lente que deseja tão ardentemente estender na tua direção tudo aquilo que poderá fazer-te feliz. A única diferença é saber que, para ti, a maior prenda não está nas minhas mãos mas sim em mim mesma.
O ar parece de algodão, agora que te reencontrei”, diz ela rodando a sua saia amarela clara. Os seus braços esbranquiçados dobram-se sobre si mesmos e do seu rosto salta o castanho caramelizado dos seus olhos que adoça o coração dele. Estão ali, frente a frente, sem se tocar. Parecem contemplar-se, como se cada um fosse uma pintura e pertencesse a um quadro que está exposto e que não pode ser manchado. As palavras enrolam-se nelas mesmas e até os sons se abafam perante o silêncio que é sentido como perfeição.
“O céu parece de cetim, agora que te reencontrei”, diz ele apontando para o manto azul que os cobre. Os seus lábios encarnados desenham um sorriso em si mesmos, encontrando-se com o dela. São dois esboços que não se desmancham. Permanecem, ali, tão belos, tão puros.
À volta, tudo para. Não existe ruído, nem tempo, nem espaço. Apenas a ligeira brisa os faz recordar, por momentos, que não existem apenas um para o outro.
Ele olha para as suas sardas alaranjadas pelo sol e aproxima-se sob o olhar do doce algodão e do manto de cetim. Ela recua, agarrando na sua saia. O seu sorriso desmancha-se em lágrimas e ele limpa-as com a ponta dos seus dedos. Sabe que, se se tocarem, podem despedaçar a magia que criaram outra vez, ao se reencontrarem numa rua tão esquecida. Sabem que, anos atrás, caminharam ali mesmo, pisando o mesmo chão lamacento de mãos dadas, mas que foram separados por uma guerra que agora é apenas cinza.
“O chão parece feito de pétalas, agora que te reencontrei”, diz ela ainda chorando. Avança e abraça-o. A pintura é manchada, a moldura parte-se, o algodão é engolido pelo vento e o manto de cetim é cortado pelas nuvens. Mas os corpos que se contemplavam separados, são agora apenas um.
A superfície do teu olhar percorre o meu sorriso. A verdade é que não sei que o fazes a não ser quando te encontro, naquele segundo desprevenido. Ficamos os dois a ser muito mais que tu e eu. Somos um conjunto de algo que desconhecemos, por pensarmos que nos conhecemos em demasia. E é esse pedaço de ignorância que nos permite ser o que somos e não o queremos ser. Encontraste-me, naquele passado, e aí ficámos enrolados nas teias de uma felicidade que parece absurda. Isto porque és o príncipe que desenhava nas ingénuas fantasias da minha infância. És aquele boneco tosco que rabiscava com o lápis colorido de bico quebrado. Sei que os contos já passaram de moda. Sei que o presente e o passado são as únicas certezas que podemos abraçar e é precisamente por isso que escolho imortalizar-te em palavras. Amo-te por existires para além dos sonhos. És real e não de plástico. Consigo sentir as tuas imperfeições nas minhas e é aí que compreendo que nada disto saiu de um antigo retrato criado por uma criança sem especial talento para o desenho. Gosto das tuas medidas, da certeza dos seus centímetros, da complexidade do teu crânio, da postura com que me vês. Não és um irreprovável manequim que se vangloria pelas montras. Tens cabeça e não fazes questão de te mostrares. Mas o mais incrível é que todos te conseguem ver.