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Ela tem nome

Ela tem nome

Agora que te reencontrei...

O ar parece de algodão, agora que te reencontrei”, diz ela rodando a sua saia amarela clara. Os seus braços esbranquiçados dobram-se sobre si mesmos e do seu rosto salta o castanho caramelizado dos seus olhos que adoça o coração dele. Estão ali, frente a frente, sem se tocar. Parecem contemplar-se, como se cada um fosse uma pintura e pertencesse a um quadro que está exposto e que não pode ser manchado. As palavras enrolam-se nelas mesmas e até os sons se abafam perante o silêncio que é sentido como perfeição.

“O céu parece de cetim, agora que te reencontrei”, diz ele apontando para o manto azul que os cobre. Os seus lábios encarnados desenham um sorriso em si mesmos, encontrando-se com o dela. São dois esboços que não se desmancham. Permanecem, ali, tão belos, tão puros.

À volta, tudo para. Não existe ruído, nem tempo, nem espaço. Apenas a ligeira brisa os faz recordar, por momentos, que não existem apenas um para o outro.

Ele olha para as suas sardas alaranjadas pelo sol e aproxima-se sob o olhar do doce algodão e do manto de cetim. Ela recua, agarrando na sua saia. O seu sorriso desmancha-se em lágrimas e ele limpa-as com a ponta dos seus dedos. Sabe que, se se tocarem, podem despedaçar a magia que criaram outra vez, ao se reencontrarem numa rua tão esquecida. Sabem que, anos atrás, caminharam ali mesmo, pisando o mesmo chão lamacento de mãos dadas, mas que foram separados por uma guerra que agora é apenas cinza.

“O chão parece feito de pétalas, agora que te reencontrei”, diz ela ainda chorando. Avança e abraça-o. A pintura é manchada, a moldura parte-se, o algodão é engolido pelo vento e o manto de cetim é cortado pelas nuvens. Mas os corpos que se contemplavam separados, são agora apenas um.

Ainda haverá humanidade?

Por vezes perco a fé na humanidade. As pessoas ficam a parecer-me decrépitas e aí penso que ser um animal racional é um infortúnio. Sei que estes pensamentos são totalmente repreensíveis, já que todos nós somos inconsistentemente moldados pelas imperfeições (que, na verdade, nos embelezam) e que são precisamente esses traços que nos marcam como indivíduos distintos. Mas, honestamente, nem sempre consigo ver o mundo sem contorná-lo pelas mentiras, pela violência e pela estúpida guerra que não se deixa morrer.
É incrível como alimentamos a nossa própria maldade. Ela consome-nos, diariamente; dilui pedaços nossos no caos do sistema e viola a nossa própria integridade.
A televisão é colorida pelo fogo das bombas e a rádio deixa soar o grito dos tiros que, diariamente, cruzam o outrora céu azul. Será ainda azul, este nosso céu? Ou perdemo-lo pelos sentidos desgarrados da ganância?
Sou humana, como eles. Todos nós pertencemos a este rijo núcleo que colide contra um destino poluído. E, sabendo disto, continuamos a caminhar pela mesma estrada.

Sim, as balas são diferentes, mas o braço que as faz disparar é apenas um.

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